O gauche

Meu nascimento foi algo bastante peculiar. Quando a recém Querubim Amélia, completou 401 anos (idade certa para criar um anjo), foi logo ver se estava com a habilitação em magia nos conformes e se não tinha nenhuma multa a pagar com serviços comunitários. Estava tudo OK e ela foi buscar os ingredientes para minha criação: água mineral, detergente biodegradável feito com cinzas de cordeiro – para a bolha de sabão onde os anjos são encubados durante cinco meses, como se fosse uma placenta – açúcar, para dar resistência a bolha, e, obviamente o famoso livro feito pelo próprio – salve, salve! – Criador – Mor, o Big Chefe “Crie seu anjo como você sempre desejou em 14 lições”. Qualquer Serafim recém saído da bolha tem um desses em casa e sabe o livro de cor e salteado. Amélia, que foi a única ruiva branquela de olhos pretos que eu já vi (o que deu uma mistura bonita, porém estranha), estava tendo dificuldades em manter a bolha sem estourar, o que é vital num nascimento perfeito de um Serafim, e demorou quase um mês para achar a consistência de bolha ideal. Ela já estava ficando atordoada por não conseguir, pois o maior desejo de sua vida era ser mãe de um menino. Amélia tinha muita inveja dos animais que carregavam seus filhos em seu próprio ventre. Desejava ardentemente ter um garotinho e queria que ele fosse tão branco quanto ela, de olhos de um azul profundo como o céu e cabelos muito pretos, queria que fosse escorpiano, para ser forte, manipulador e teimoso, com ascendente em Câncer, para lhe garantir uma doçura maternal e um grande amor pela família, além de lhe dar um ar meio choroso, típico dos cancerianos.Assim, eu meio que vivo sempre com cara de choro, meio com cara de como se diz…Chapado. Seu garotinho devia ser magrinho, ossudo e não muito alto, e ter mais ou menos uns 12,13 anos, bem naquela fase em que a voz ainda não esta bem definida. E, é claro ser muito inteligente e adorar Sky Volley Ball.Foi exatamente assim que eu saí quando rompi minha bolha. Porém, alguma coisa havia saído errado.Eu não conseguia pensar como um garoto de 12 anos, mas como um cara de 23 e percebi que eu tinha um piercing bem no nariz brilhando como ele só. Amélia, que já não estava batendo muito bem da cabeça, veio toda contente me ver e me deu um nome bem interessante:

- Meu querido Victor Hugo! Finalmente você nasceu! Estou tão contente…

(…continua)

~ por Jules em Novembro 11, 2007.

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