- Não fala uma coisa dessas! Pirou é? Quer ser banido antes de ir pro Vilarejo? Nunca mais repita isso, seu Serafim desbocado…Traveco…Tá pensando que tá falando de quem? É o Big Chefe cara, não é qualquer um não! Peça perdão! – e me obrigou a ajoelhar no chão, de cabeça baixa.

- Perdão… – que besteira que eu falei! Fiquei morto de arrependimento.

- Assim está melhor…Saiba que nunca pode desafiar o Big Chefe desse jeito. Ele é uma autoridade…

- Mas se Ele fica mudando toda hora, como saber a Sua verdadeira forma?

- Ah…Boa pergunta Serafim, boa pergunta!

Reparei que Gabriel não me chamava de Victor Hugo, mas só de Serafim, o que já estava me irritando. Ele explicou que Big Chefe é na verdade uma grande bola de luz dourada, capaz de cegar até o Anjo mais antigo das Terras. Percebeu que muitos até se desintegravam com toda essa luminosidade “As Terras perderam muitos anjos legais, sabe?”, assim Big Chefe foi obrigado a assumir uma forma mais comum, tipo “imagem e semelhança dos anjos”, e que prefere os tipos femininos, pois são mais sensíveis e agradáveis. Só se transforma em homem quando está deprimido e decide mudar para animar um pouco. “Sabe né, virar um tripé! Hahahahhahaha!”

 Gabriel me disse que Big Chefe era conversador e piadista, adorava cães e decidiu que eles seriam os melhores amigos do homem, “Ele tem quase quatrocentos desses animais”, mas sabia ser bravo e sério quando era hora “Precisa vê – lo irritado, é pior que mulher com TPM!”. Depois de uma semana melhorei completamente e era hora de me mudar para o Vilarejo. Juntei umas poucas coisas: umas roupas mal acabadas que Amélia havia feito, meu par de asas para jogar Sky Volley Ball, o espelhinho de Amélia, os livros “Crie seu anjo…”, que ganhei de Gabriel, e “Como Conviver com a Síndrome do Corpo Trocado e Ter uma Vida Normal”, que ganhei de uma Virtude chamada Rafael, especialista no assunto, amicíssimo de Gabriel e, por fim, um modelador de cachos que ganhei de Melpômene, uma Querubim bonitinha e loura com cara de bebê que soube da minha história e acabou se emocionando com meu trágico inicio de vida.

Depois soube que ela virou Musa nas Terras dos Homens e vivia atrás de Shakespeare, que acabou escrevendo uma história bem bonita e trágica (agora não lembro qual) sobre ela. Mas Melpômene não vem ao caso agora. O caso é que me mudei para o Vilarejo e ele não era lá essas coisas de confortável, como a casa vermelha de Amélia ou a casa azul de Gabriel.

 Ali, todas as casinhas eram pequenas, de madeira, com um quintalzinho na frente. Duas peças. Vinham com um fogão para preparar poções (anjos não comem e o fogão só é útil para isso), uma máquina de gelo (também para poções, em especial a da Neve, que levava o inverno as Terras dos Homens), uma pia com água mineral e meia dúzia de mobílias, entre elas, uma caminha de bambu que eu achei estilosa pra caramba. Lençóis brancos, sempre. As paredes idem.

~ por Jules em Novembro 30, 2007.

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